Japão visto através de espelhos

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Luísa Alpalhão, nascida em Lisboa, viveu parte da sua infância em Macau ainda enquanto governado por Portugal. Entre os vários destinos Asiáticos visitados nesse período, o Japão foi o país que mais a marcou vindo gradualmente a desenvolver uma curiosidade e fascínio pelo Dai Nippon, o país do sol nascente.

Em 2002 Luísa inicia os seus estudos de Arquitectura em Londres. Tira a Licenciatura na University of East London, o Mestrado no Royal College of Art e na Bartlett e, actualmente tem em curso a conclusão do Doutoramento na University College of London. Ao longo do seu percurso a fronteira entre arquitectura e arte tem vindo a tornar-se cada vez mais ténue tendo desenvolvido um interesse especial sobre o envolvimento das pessoas no pensar, concepção e construção de espaços urbanos partilhados. Deste interesse surge a curiosidade por descobrir evidências de ocupações serendipistas de espaços urbanos, uma atração por construções vernaculares contemporâneas, que o historiador e arquitecto Bernard Rudofsky inicialmente designou como uma ‘Arquitectura sem Arquitectos’. Entre o fascínio por construções informais, interesse material, estético e funcional da cultura material popular e o gosto por caminhar surge o início de uma sequência de visitas ao Japão. Em 2010, dezanove anos após a sua primeira visita, Luísa esboça um itinerário em busca dos diversos tipos de artesanato regional Japonês, baseado nas pesquisas do filósofo e fundador do movimento Mingei, Sōetsu Yanagi. Durante um mês, sozinha, percorre o Norte do Japão a pé e de comboio.

Influenciada pelo conceito de Dérive de Guy Debord, teórico e membro do movimento Situationist International, procura no acto de caminhar sem destino específico em paisagens urbanas, ser surpreendida pelo desconhecido, pelo banal que, captado através da lente da máquina de um estrangeiro revela uma beleza oculta, quase que mística, num país carregado de contrastes. Ao caminhar confronta-se com a presença ubíqua de espelhos convexos de trânsito que retratam o paralelismo díspar das paisagens contidas dentro e fora dos mesmos. Assim começa a documentar a sua passagem pelos vários destinos do seu itinerário tornando-se, através da lente da sua máquina fotográfica, na narradora do que viria a ser a [ conspiração dos espelhos | mirror conspiracy ]. Se de início os peculiares auto-retratos surgiram como uma forma meramente intuitiva de registar o seu percurso, rapidamente se tornaram numa documentação metódica adoptada em todas as subsequentes viagens.

Nessa primeira viagem, acompanhada por O voo da Borboleta, de Wenceslau de Moraes’ e Quinze Dias no Japão de Bénard da Costa procura percorrer alguns dos destinos visitados pelo escritor e militar Português que melhor documentou a sua vivência no Dai Nippon e pelo crítico de cinema que, nos finais dos anos 70, foi convidado a fazer uma viagem oficial ao Japão sobre a qual escreveu um conjunto de crónicas. Nesse primeiro ano, as fotografias são ainda captadas na sua Canon EOS Kiss X com uma lente que lhe permitia uma escolha de planos de maior ou menor amplitude. No início as fotografias eram ainda pouco sistemáticas tendo, conforme o projecto foi crescendo, procurado enquadramentos mais peculiares e representativos dos contrastes encontrados entre ambientes urbanos e rurais Japoneses.

Em 2011 reside, temporariamente, em Lisboa onde funda o atelier urban nomads, uma plataforma que reune várias disciplinas criativas na concepção de projectos que vêem a cidade como um conjunto de terrenos a explorar de forma experimental para a construção de espaços partilhados que nos permitem viver a cidade como um espaço social e físico construído colectivamente. Os projectos do atelier seguem um processo holístico criativo que enfatiza a importância de construir narrativas pensadas e concebidas especificamente para o local onde se inserem através do contar de histórias sobre esse mesmo local procurando gerar espaços para trocas culturais que documentam as marcas que cada um de nós – nómadas.

Nesse mesmo ano regressa ao Japão entre Setembro e Dezembro para uma residência artística em Fukuoka na Galeria Konya2023 onde desenvolve o projecto [ table for 100s ]. Este dá início a uma procura contínua de ligações históricas e culturais entre Portugal e países onde o povo Português deixou marcas, destacando sempre o Japão. [ table for 100s ], é uma mesa que documenta diferentes formas de estar à mesa, de comer e de reunir amigos e familiares em torno de um objecto que ganha uma dimensão espacial. Influenciada pelos escritos do missionário Luís Fróis que, no século XVI, documentou os hábitos e costumes dos Japoneses e Europeus no seu livro Tratado das contradições e diferenças de costumes entre a Europa e o Japão, o projecto tornou-se numa análise sobre as relações gastronómicas e culturais entre Portugal e o Japão. A participação de vários habitantes de Fukuoka, as observações recolhidas no terreno, as aulas de culinária Japonesas com Keiko Morimitsu e as suas leituras, informaram a instalação artística da mesa e o conjunto de pequenas obras que conduziam os visitantes até ao topo do edifício da galeria onde a mesa serviu de espaço para um repasto Luso-Nipónico com tempura e peixinhos da horta, arroz doce e ohagi, entre outras iguarias inter-culturais.

Em Dezembro, antes de regressar a Lisboa, é acompanhada pela ceramista Margarida Melo numa viagem pelo Sul do país. Juntas, continuam a procurar revisitar as paisagens descritas por Wenceslau de Moraes, Lafcadio Hearn e Bénard da Costa passando, entre outros destinos, por Nagasaki, Kyoto, Nara e Matsue. Margarida passa também a habitar os múltiplos espelhos que encontram durante as suas longas caminhadas e juntas relatam novas histórias dos locais visitados. Durante a viagem ficam alojadas em casas de Japoneses, amigos de amigos, que as recebem sempre de forma acolhedora e lhes permitem melhor compreender os hábitos e costumes desse povo. Shinobu Minami, uma artista plástica originária de Okayama, influenciou a forma de ver o Japão sobrepondo uma visão mais crítica à anterior imagem de uma nação que prima pela sua delicadeza e generosidade tendo vindo a aumentar o seu fascínio pelo país, aceitando as idiossincrasias e querendo continuar a descobrir de forma mais pessoal a riqueza daquela cultura.

No ano seguinte regressa a Londres onde dá início ao Doutoramento. Durante os dois anos seguintes não volta ao Japão. A vontade de continuar a descobrir o país leva a que descubra novos escritores estrangeiros que lá passaram parte das suas vidas. Chronique japonaise, de Nicolas Bouvier; Kokoro: Hints and Echoes of Japanese Inner Life de Lafcadio Hearn; Inland Sea e Japanese Portraits de Donald Richie nutriram a curiosidade e encanto pela cultura desse país longínquo. Ao visitar uma exposição dos fotógrafos Shomei Tomatsu e Daido Moriyama vê, pela primeira vez imagens de Okinawa. Na publicação Pencil of the Sun, Tomatsu retrata uma Okinawa do pós-guerra onde as influências Americanas fruto da extensa ocupação territorial do arquipélago por bases aéreas Americanas alterou tanto a paisagem como a demografia das ilhas Ryukyu. As imagens dos dois fotógrafos tiveram impacto tal que, em 2014, Luísa regressa ao Japão indo, desta vez, directamente até Okinawa, conhecida pelo exotismo da paisagem e semelhanças com o Hawai.

A Canon fora substituída por uma outra máquina de fabrico Japonês mais leve, uma Lumix DMC G3, que lhe permitia também fazer pequenas filmagens.

Em Agosto desse ano Luísa fica alojada em casa de Aska Inoue em Urasoe, a norte de Naha. Aska reside num pequeno apartamento de chão de tatami com o seu filho Koharu de seis anos. Aska, uma cozinheira exímia, pertence a um grupo comunitário que procura promover uma alternativa ao ensino estatal, Oruta. Influenciado pela filosofia e pedagogia de Rudolf Steiner, no Oruta as crianças brincam de forma espontânea, aprendem através da observação da natureza e do que as rodeia. Grande parte dos membros do Oruta oriundos de Honshu procuraram mudar-se para Okinawa após o desastre nuclear em Fukushima, cientes dos problemas ambientais, de saúde e alimentares provenientes das radiações nucleares. Tem o privilégio de, pela primeira vez, poder viver num ambiente familiar e criar fortes laços de amizade com alguns dos membros da comunidade do Oruta.

Durante três semanas é acompanhada por Aska, Koharu, Sayaka e Mizuki em algumas das suas deambulações pela ilha e dá início a um projecto experimental de marionetes de sombra [ shadows on stilts ] desenvolvido com outros membros do Oruta nomeadamente Maiko, uma artista plástica especializada em marionetes de sombra, Yuki uma outra artista plástica, Taeko, Seiko e Titus, um arquitecto de origem Alemã, há muito residente em Naha, que a apresentou a Aska. Nesse Verão as fotografias captadas nos espelhos passam também a incluir Aska e Sayaka como narradoras das paisagens locais. Juntas retratam um território muito distinto do Japão visto nos guias turísticos. Okinawa, devido ao clima húmido, ventos fortes e proximidade com o mar, apresenta uma construção robusta, em cimento, e de aparência mais degradada. As influências dos países vizinhos exprimem-se na procura de cores mais garridas, visíveis tanto na arquitectura como nos padrões do típico Bingata, um dos tecidos locais. Os telhados não são de telhas negras ou sapé, mas sim de telhas vermelhas, semelhantes às que em Portugal encontramos. As casas são acrescentadas com chapas metálicas de tons de azul, esverdeado e cinzento, pedaços de madeira, tubagens, sempre partilhadas com plantas das mais diversas espécies. Entre as monolíticas Mansions (complexos de habitação social) somos surpreendidos por pequenas e frágeis casas típicas de Okinawa, protegidas pelos Shisa, os dragões que usam a arquitectura como poltronas de onde, refastelados, observam o ritmo menos acelerado de uma população híbrida. As árvores, pujantes, lustrosas e verdadeiramente exóticas, transportam-nos até um mundo distinto e fantástico em que a Natureza absorve as cidades. 

No ano seguinte regressa a Okinawa e volta a ficar em casa de Aska e Koharu. Desta vez o período da estadia foi mais longo, seis semanas, tal como as viagens feitas pelo arquipélago tendo chegado até Iriomote, donde em dias de grande claridade, se avista Taiwan. Ao longo das suas várias estadias, começa também a fotografar as construções informais que desafiam qualquer convenção Europeia de planeamento urbano e legislação na área da construção. Ao contrário do que se encontra na Europa onde a predominância deste tipo de construções se avistam repetidamente em zonas rurais ou nos subúrbios urbanos, no Japão estas construções informais ponteiam as ruas estreitas das povoações Japonesas surgindo muitas vezes lado-a-lado de edifícios modernos. Descobre o trabalho etnográfico do arquitecto Wajiro Kon, fundador do conceito Modernology. Após o grande terramoto de Kantō em 1923, Kon, juntamente com o etnógrafo Kunio Yanagita, registam as mudanças de vida na capital fruto do desastre. As observações meticulosas de Kon informam o olhar sobre as construções informais que Luísa encontra ao viajar pelo Japão, especialmente em Okinawa. Dá então início a um outro projecto, [ the golden bird ], inspirado num conto tradicional de Okinawa, a decorrer em paralelo com [ beleza atípica ], um levantamento de estruturas informais em Portugal. A forma de fotografar altera-se influenciada pelo trabalho do fotógrafo Francês Raymond Depardon e do arquitecto e fotógrafo Duarte Belo, e fruto da aquisição de uma nova máquina, uma Fujifilm X100T. Com uma lente f/2 equivalente a uma lente de 35mm, as fotografias passam a ter uma composição e foco mais semelhante com a visão humana, alterando o tipo de enquadramentos das fotografias.

[ conspiração dos espelhos | mirror conspiracy ] é um projecto em contínuo desenvolvimento. Não termina em cada viagem feita ao Japão, mas serve, sim, de catalizador para novas formas de ver aquele país, pelos seus contrastes e riqueza, pelas pessoas que lá habitam, continuará a ser um destino recorrente fazendo com que cada viagem se torne única, pois a forma de captar as paisagens – urbanas ou rurais -, as pessoas e seus costumes estará sempre a ser re-inventada fruto das descobertas feitas entre uma viagem e outra, entre uma pausa e nova caminhada.

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[ conspiração dos espelhos | mirror conspiracy ] na Fundação Luís I, Centro Cultural de Cascais

De Janeiro a Março de 2016 o Centro Cultural de Cascais acolhe a primeira mostra de uma selecção de fotografias do projecto [ conspiração dos espelhos | mirror conspiracy ]. A exposição foi organizada por Luísa Alpalhão, pela Embaixada do Japão e pelo Centro Cultural de Cascais com o intuito de partilhar uma visão original de um país prolificamente retratado.

A planta da exposição foi concebida de forma a recriar os percursos percorridos de Norte a Sul do Japão mostrando uma variedade de paisagens e contextos dentro e fora dos ubíquos espelhos convexos. Cada fotografia contém duas narrativas paralelas sobre o complexo país e seus habitantes. Algumas das legendas relatam pequenos pormenores sobre o contexto em que as fotografias foram tiradas, a época do ano e personagens presentes nas imagens. [ conspiração dos espelhos | mirror conspiracy ] é um percurso contínuo e não o registo de uma viagem com princípio e fim sendo que múltiplas interpretações poderão ser feitas segundo o olhar daqueles que, dentro de cada espelho revêm alguns dos percursos que eles próprios poderão percorrer.

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ルイーザ・アルパラオ、リスボン生まれ、幼少時の一時期をポルトガル統制下のマカオで暮らす。そのころ訪れた多くのアジア諸国の中で日本からとりわけ大きな印象を受け、それ以降、日出づる国、日本に興味と感心を寄せ続ける。

2002年から、彼女が今も生活し教鞭をとるロンドンで建築教育を受け始める。その過程で彼女にとっての建築と芸術の境界は曖昧になり、使う人が、考え、計画し、建設する、共同の都市空間に特別な関心を持ちはじる。やがてこの個人的な興味は、建築史家のバーナード ルドルフスキーが唱えた‐建築家なしの建築‐現代的土着建築に対する魅力とともに、人々が偶発的に支配する都市環境の研究へと発展しました。ルイーザの反正統的な建築、材料の質と美しさ、土着文化の役割、そして歩き回り探求することへの情熱が、彼女を日本へたびたび引き寄せ続けています。

2010年、彼女の最初の訪日から19年後、ルイーザは、民芸運動家 柳壮悦の影響を受け、日本の地方工芸を見て回る旅行を計画し、一か月間、徒歩と電車で北日本を一人で旅をします。彼女は、ガイ・デボード(理論家、国際的シュチュアニスト運動メンバー)の思想である、デライブ(都市景観の中をあてもなく歩きまわる)に影響され、無名の平凡な物の中にある神秘的、オカルト的な美を見つけようと、外国人のカメラの目という手法によって探し求めました。

旅の途中で、彼女は周辺環境を映し出している道路反射鏡がいたるところに設置されていることに気付き、やがて、彼女のカメラによる旅の描写は、「鏡の陰謀」の語り手を形成し始めました。直感的に捉えた、奇妙な自画像とでもいったイメージは、その後の旅行を記録する新たな手法となります。

彼女の日本への最初の旅行に伴ったのは二冊の本、「The Flight of the Butterfly」Wenceslau de Moraes著 と 「Fifteen days in Japan」Bénard da Costa著で、このポルトガル軍将校が彼自身の経験を記録した゛ダイニッポン″、そして映画評論家が70年代の後半に日本に招かれた時に著した旅行記に出てくる、いくつかの場所を訪ねることが旅の当初の目的でした。

2011年にリスボンに一時期戻り、atelier urban nomads (アトリエアーバンノマド)を設立する。同年9月から12月の間、福岡市のコンヤ2023ギャラリーに滞在芸術家として招かれ、 「100人のためのテーブル」を作成する。3年後、再び日本を訪れ、このときは沖縄に飛び、3週間、那覇市の北、ウラソエ のイノウエ・アスカ氏の家に滞在する。 アスカ氏は6才の息子コハルと畳敷きの小さなアパートに住んでいて、ルイーザは3週間、アスカ氏、コハル、サヤカ、ミズキとともに、島を旅してまわりました。その間にオルタのメンバーとともに実験的な影絵人形劇プロジェクト(竹馬に乗った影)を始めました。オルタとは正規の教育方法とは異なる独自の教育を推奨するコミュニティーグループで、それから一年後、ルイーザはこの友人たちに再会するため再び沖縄を訪れました。

「鏡の陰謀」は、現在進行形のプロジェクトです。それは短編の日本旅行の毎に完成するものではなく、一つの国を観察する触媒を形成するためのプロジェクトで、対比、豊かさ、そこに住む人々をユニークな手法で捉えます。

日本は彼女にとって周期的に訪れる場所であり続けるでしょう。そして、それぞれの訪問が、思い出深いものであるように、この国の風景 (それが都会であれ田舎であれ)、人々、そして彼らの慣習は、積み重なる思い出とともに常に再発見され続けます。

立ち止まったその時と新しい一歩の間で。

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